Morar em Portugal: minhas impressões depois de um ano – Parte 2

Morar em portugal
Morar em Portugal foi uma decisão tomada em conjunto com meu marido, mas que não foi planejada com muita antecedência. Pra ser sincera, não houve antecedência nenhuma! rs Decidimos que iríamos fazer uma visita de reconhecimento, pesquisamos sobre custos, escolas e qualidade de vida e compramos a passagem aérea.

Em março estávamos em Lisboa, alugando apartamento e tirando o NIF, além de fazer uma visita de reconhecimento. Dia 28 de maio meu marido veio. Em 22 de junho eu, Rafa, Juju e Cookie nos juntamos a ele.

Então, vamos continuar com minha análise desse nosso primeiro ano aqui? Vamos seguir com as coisas boas que morar em Portugal me trouxe:

=> Minha relação com o tempo mudou. Não vivo mais em horário comercial. Isso é algo que já me incomodava MUITO quando eu tive meus filhos. De 8h às 18h eu pertencia a alguma empresa. Mesmo que eu já tivesse terminado o meu trabalho, já tivesse feito todas as minhas entregas.

O relógio precisava dar todas as voltas, o crachá precisava passar na roleta na hora certa. Só então eu podia viver de verdade, dar atenção aos meus filhos, ainda tão pequenos.

Isso eu tratei de dar um jeito e passei a trabalhar como freelancer quando Juju tinha 3 anos. Mas, agora eu tô falando de outro tipo de tempo. Aquele que a gente observa não só porque o filho tá com a calça pescando siri ou a filha tá quase do nosso tamanho. Um que a gente sente na mudança das cores das folhas, do vento que vai ficando mais gelado, do sol que começa a se por quase na hora da gente dormir.

Com as estações do ano, surgiu também uma nova forma de aproveitar e valorizar a vida. A isso eu ainda somo o o jeito mais desacelerado dos portugueses (diria até dos Europeus) de viver. Tempo pra família, menos correria, um foco bem menor no trabalho, daquele jeitinho workaholic que deixa cada um no seu canto. Isso pra mim tem um valor enorme.

=> Preciso de menos para viver bem. Sabe aquela planilha com dezenas de itens do orçamento? A gente no Brasil precisa trabalhar loucamente para conseguir pagar as contas. Que são altas, justamente porque não temos o básico que nossos impostos pagam. Escola e saúde já ocupavam metade do nosso orçamento familiar. Eu nem tinha saído da cama ainda e já tinha uma conta mensal de dois dígitos!

Aí entra seguro que de casa e de carro, que é mais caro por causa da violência. Alimentação, tanto em supermercado quanto em restaurantes, que só fazem os dígitos aumentarem. O descontrole vai aumentando em pequenas coisas: o material escolar, que tem preços exorbitantes, uma roupa nova que seu filho precisa, porque já não cabe nas antigas.

Acelera para um ano depois e já tiramos da planilha os itens escola e saúde. Vocês têm noção da leveza que a alma de uma mãe ganha quando ela tem a garantia de que seus filhos têm educação de qualidade garantida até o final do ensino médio (aqui se chama secundário?). Isso é qualidade de vida, meu povo!

Eu durmo tranquila, sabendo que, mesmo quando a coisa aperta, e a gente precisa segurar as despesas, Rafa e Juju continuarão estudando. Tendo material escolar. Fazendo suas saídas de estudo (que não passam de 10 Euros, em vez dos R$ 300,00 ou R$ 500,00 das saídas no Brasil). Claro que pra isso a gente paga impostos altos. Em média, 34%. Mas, ver o retorno disso e não precisar tirar do bolso algo que o governo tem obrigação (e não é bondade, hein?) é de matar.

=> Portugal é um país social democrata. As diferenças sociais (que existem, é claro) não são alarmantes a ponto de criar um fosso, como existe no Brasil. Filhos de famílias mais pobres convivem com famílias com melhor situação econômica nas escolas públicas.

Todos têm acesso à educação e saúde (apesar de, sim, haver diferenças e déficits). Os portugueses gastam no que precisam, e não em supérfluos. Esse ambiente mais justo reflete nos outros pontos que eu já falei aqui. Há muito o que se melhorar. Mas, a sociedade não é doente e cheia de conflitos de classe.

Como nem tudo são flores, e eu nunca vou ficar aqui dourando a pílula e dizendo que morar em Portugal ou se mudar para um outro país é um mar de rosas, acho importante também registrar as dificuldades, ou o que ainda precisa melhorar. Não consigo pensar em nada ruim que a mudança nos trouxe. Mas, há sempre coisas para melhorar:

=> O custo de vida seria lindo, perfeito, maravilhoso se não fosse os aluguéis. Há três anos, esse mundo quase perfeito existia por aqui. Mas, com a especulação imobiliária, o Golden Visa e as notícias que colocam Portugal na crista da onda do turismo, a realidade é bem diferente. A oferta ainda por cima é maior do que a demanda, o que faz com que os arrendamentos (como se fala aluguel por aqui) subam loucamente a cada ano. No nosso caso, o aluguel significa 60% do nosso custo mensal. Vivemos em um lugar lindo, um apartamento ótimo, em um prédio muito nem localizado. Mas é pesado. E não sei muito bem quanto tempo essa situação ainda pode durar.

=> Os salários em Portugal são muito baixos. Proporcionalmente, é claro que o custo de vida também é. Não adianta querer comparar os 1500 Euros de salário mínimo da França com os 580 de Portugal. Lá a vida é MUITO mais cara. Mas, quando consideramos o ponto ali de cima, a coisa pesa. Brasileiro quando vem pra cá precisa ter isso em mente. Vai ganhar menos. Mas vai viver melhor.

=> O mercado de trabalho aqui é mínimo. Portugal é um país pequeno, recuperando-se de uma crise econômica séria. O desemprego que antes chegava a quase 20% já caiu para 7,9% em janeiro deste ano. Há vagas para a área de serviços (turismo, hotelaria, restaurantes). Para quem chega com um nível maior de instrução ou em busca de emprego em sua área, a história já é bem diferente.

Termino esse post ouvindo uma algazarra ao fundo. Crianças de férias (ainda falta um mês!), mas Juju está recebendo amigas em casa. Gargalhadas e brincadeiras. Sim, há (muita) vida depois da imigração. <3

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2 Comentários

  1. Oi Mic,
    seu marido tem emprego em Portugal?
    Vcs dois trabalham de forma independente?
    Vcs trabalham para o mercado brasileiro ganhando em real?
    Desculpa se as perguntas forem impertinentes e muito pessoais.

    Longe de querer ser invasiva, tenho planos de morar em Portugal com meu marido, mas um dos pontos que mais pesam e o que faríamos ai.
    Teriamos como nos manter por um ano com reservas financeiras, mas temos medo de, ao final, não termos conseguido algo para nos manter aí.
    Beijos e obrigada por compartilhar tanto conosco.

    1. Oi Paula! Nos viemos sem a intenção de procurar emprego. Com reservas e a intenção de trabalhar para clientes no Brasil e, com o tempo, aqui.
      Seis meses depois de chegarmos, meu marido recebeu uma proposta de trabalho e está trabalhando com contrato. Eu continuo com projetos esporádicos e buscando clientes fixos. A conta ainda não fechou, mas, certamente, no Brasil estria mais difícil de fechar, por conta do custo de vida mais alto.

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